Pelos anos de 1942, os irmãos Rocha Cavalcanti (Fernando e Carlos), representando a terceira geração de uma família que criava Nelore desde 1916, priorizaram na seleção do Nelore IRCA os acasalamentos na mesma linha de sangue (“line-breeding”) com animais herdados de seu pai o Dr. José da Rocha Cavalcanti (Dr.Juquinha), vindos de seu avô o cel. Carlos Benigno Pereira de Lyra e nelore adquiridos entre outras origens como do pioneiro Pedro Marques Nunes e da tradicional criação do Dr. Otávio Machado no Estado da Bahia (“OM”).

Hoje em São Miguel do Araguaia – Goiás, José da Rocha Cavalcanti – sucessor do rebanho IRCA – prossegue num programa de criação que tem por objetivo o melhoramento das características econômicas da raça, procurando oferecer animais aptos para reprodução, na medida do possível, de homozigoticidade conhecida, isto é, animais que estejam de acordo com o padrão, possuam características semelhantes herdadas tanto da mãe quanto do pai e sejam parentes sangüíneos relativamente próximos.

Uma fórmula de criação bastante simplificada, de modo de que os resultados, sejam assegurados. A simplificação da fórmula de criação é alcançada através de cruzamento dentro da mesma linha de sangue, seja através do “inbreeding” (parentesco muito próximo) ou do “line-breeding” (relação de parentesco menos estreita).

Segundo trabalhos de alguns pesquisadores como Humphrey, Warner, entre outros, têm-se as seguintes recomendações, para se obter uma linhagem definida dentro da raça com o tipo e características semelhantes:

  1. Decidir quais as poucas características essenciais e defeitos intoleráveis. Entre as essenciais, devem ser incluídas: Fertilidade, Rusticidade, Precocidade, Temperamento.
  2. Desenvolver um sistemático planejamento dentro do qual as qualidades e os defeitos sejam tratados em face do objetivo de cada criação, com especial ênfase para os pontos individuais que necessitam ser aperfeiçoados.
  3. Deve ser prolongado persistentemente o “line-breeding” dos animais destaques, que pelo teste de progênie, demonstram ser melhoradores para as características de importância econômicas presentes na linhagem. O “ïnbreeding” se faz quando o animal utilizado possui qualidades marcantes. Quando necessário, poderá ser feito um “out crossbreeding” (acasalamento de não parentes) para tentar obter características que não estejam presentes nos genótipos das famílias iniciais.

O criador que se dispõe a seguir essas orientações não estará isento dos muitos desafios que terá pela frente. Freqüentemente ocorre que o reprodutor de melhor aparência e que se destaca em exposições não é o melhor padreador. O mesmo se aplica às fêmeas; para se chegar à matriz superior ele terá tantos acertos quantos erros, devendo selecionar a que lhe pareça mais fértil, feminina e mais perfeita quanto ao tipo padrão, não se esquecendo que encontrará animais com falhas de maior ou menor importância. As falhas menores serão eliminadas com acasalamentos posteriores.

Varedo 1433 IRCA, filho de sua avó (Ipojuca 157 IRCA que aos 17,5 anos de idade desmamou sua 14a. cria, SUPERIOR no CDP-ABCZ), irmão de seu próprio pai, ótima conformação frigorífica e com filhos bem avaliados nas características de carcaça.

Varedo 1433 IRCA, filho de sua avó (Ipojuca 157 IRCA que aos 17,5 anos de idade desmamou sua 14a. cria, SUPERIOR no CDP-ABCZ), irmão de seu próprio pai, ótima conformação frigorífica e com filhos bem avaliados nas características de carcaça.

O porque desta seleção?

O objetivo real de toda seleção é elevar a média de produtividade de uma raça, procurando obter uma população homogênea (menor desvio padrão) próxima do biótipo ideal, de alto desempenho na condição de pasto.

Deverão estar presentes as características essenciais como: Fertilidade, Rusticidade, Longevidade Produtiva, Temperamento, pois sem estas a criação estará fadada ao desastre. Falta de Fertilidade e Rusticidade acarreta descontinuidade e aumento do custo, o que inviabiliza a criação. A longevidade produtiva é importante na medida em que um animal de grande valor na reprodução precisa ser útil por muito tempo, após sua importância haver sido reconhecida através da sua progênie. Finalmente o Temperamento é de grande importância para a produção de carne com qualidade, pois representa a facilidade do manejo.

O que todo criador deseja ao adquirir um tourinho para seu rebanho é que ele possua PREPOTENCIA, que como descreve J.L.Lush, é a capacidade de imprimir as suas características nos seus filhos, de tal forma que estes com ele se pareçam, ou se assemelhem entre si, mais intimamente do que é comum.

Não é tarefa fácil desenvolver “prepotência” em uma seleção, isto porque muitas características desejadas são o resultado da combinação de mais do que um par de genes para esta herança, o que torna o resultado menos preciso. Em segundo lugar, selecionamos animais com várias características o que torna o trabalho extremamente difícil, porque nesse caso teríamos centenas de combinações genéticas possíveis, mesmo se cada característica fosse determinada por um único par de genes, o que é improvável.

Por isso acreditamos que o mais rápido método de se obter “prepotência” para as características a respeito das quais estamos interessados, é praticando “line-breeding” e uma seleção cuidadosa.

Se você tem três gerações de boa cobertura de carne na retaguarda de um touro, e seus parentes também o são de boa cobertura, as chances são grandes de que ele venha a ser prepotente para essa característica. Se ele e todos os parentes têm todas as características que você deseja, as chances são boas de que o tourinho de fato será prepotente para todas elas.

O Nelore IRCA proporciona oportunidade de acasalamentos dirigidos com animais de outras linhagens, visando a introdução de novos alelos no rebanho, sem perda de qualidade fenotípica.

Teríamos um aumento de diversidade genética com a introdução de alelos mais raros na nova população.

Esta é a razão pela qual o Nelore Irca permanece com um programa de seleção, priorizando os acasalamentos com animais que se destacam nas avaliações, visando alcançar índices zootécnicos superiores (fertilidade e acabamento de carcaça com ciclo curto) mantendo-se o foco no pioneirismo e tradição de priorizar alta produtividade com baixo custo.

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Por Engº Agrº José da Rocha Cavalcanti.

Esse artigo foi publicado em 1986, inspirado pelo artigo de “Consangüinidades. A Criação de Cães da Mesma Linha de Sangue”, de José Walter Santos Ferro, Criador e Juiz de Criação e Seleção da SBCPA.