Por meio da seleção, é relativamente fácil chegar a mudanças genéticas. Basicamente, a seleção leva à mudança simultânea de um número de características correlacionadas, e numa direção determinada.

No entanto, o melhoramento genético para maior lucratividade já é mais difícil de se alcançar. Isso porque se exige que haja um valor econômico agregado nas mudanças de características individuais favoráveis.

É bom frisar um conceito: o melhoramento genético não ocorre por acaso nem em função dos dados de pedigree ou de desempenho e nem mesmo pela elaboração de Sumários das DEPs (Diferenças Esperadas na Progênie) de Touros.

Apenas ocorrerá melhoramento genético de um rebanho, quando aquele que decide os acasalamentos tem objetivos claros e bem determinados, sabe o que realmente influencia na lucratividade da produção. Isso implica conhecimento dos sistemas de produção, formulados a partir dos sinais do mercado, transmitidos ao longo da cadeia, desde os procedimentos na alimentação nas fases de cria, recria e acabamento, até o rendimento da carcaça ao abate e a satisfação final do consumidor.

A propósito, é bastante recomendável a leitura do trabalho de D.J. Garrick e R.M. Enns, How best achieve genetic change? (Qual o melhor caminho para atingir a mudança genética?) , editado pelo Departmento de Zootecnia (Animal Sciences), da Universidade do Estado de Colorado, em Fort Collins, nos EUA.

Todos temos diante dos olhos as mudanças genéticas ocorridas nas últimas duas décadas, reveladas nos programas de avaliação genética da raça Nelore. Vários sumários contemplam seus leitores com gráficos que demonstram a evolução das características, como pesos nas várias idades, perímetro escrotal, facilidade de prenhez etc. Em todos os programas, fica evidente a ênfase dada às medidas de crescimento.

No entanto, convém um alerta: a seleção por meio das características de crescimento tende a aumentar os pesos em qualquer idade, incluindo o observado ao nascimento. Com isso, amplia-se o risco de problemas ao parto, aumenta-se o tamanho das vacas – com acréscimo nos custos de alimentação para sua manutenção – e se diminui o desempenho reprodutivo das matrizes. Com um agravante: o impacto dessas mudanças no lucro não fica claro imediatamente. Pior: não está havendo preocupação em quantificar o que tais mudanças significam em perdas.

Na maioria das vezes, quem paga os altos custos dessas mudanças genéticas não é quem avalia, produz ou comercializa reprodutores ou sêmen.

Temo que, apesar de toda euforia em torno das DEPs – é claro que reconheço seu valor -, elas estejam sendo elaboradas sem uma visão intrínseca da natureza, escopo e responsabilidade a longo prazo. Elaboram-se DEPs de forma previsível, de características fáceis de serem coletadas, como pesos à desmama e ao sobreano e perímetro escrotal. Adicionam-se outras, como facilidade de prenhez à idade precoce, etc. Mas que conseqüência terá a seleção dessas características na lucratividade de rebanhos produtores de carne?

Às vezes, tenho a impressão de que alguns dos programas de avaliação genética estão em busca das DEPs como um fim, em vez de usá-las como instrumento para se alcançar determinado objetivo. Nós precisamos criar ferramentas que nos levem a aumentar a lucratividade na produção de carne e não ficarmos limitados às já disponíveis, mas que se revelam não de todo adequadas.

Recentemente ouvi do diretor comercial de uma grande empresa de comercialização de sêmen que ele próprio acasalava milhares de fêmeas anualmente, e nunca usara os dados dos sumários para decidir que touros usar, embora sua equipe de vendas estivesse sendo exaustivamente treinada para vender em cima dos dados dos Sumários.

Apesar do paradoxo, esse diretor tem consciência de que seus clientes encontram mais satisfação nos fenótipos do que nas DEPs. Sua atitude é mais confortável na interpretação do desenvolvimento do fenótipo do que nos das DEPs.

Hoje, ao eleger-se um reprodutor porque sua DEP para peso ao desmame é altamente positiva, também se está promovendo um aumento correlacionado do tamanho da vaca adulta e, conseqüentemente, impondo acréscimos nos requerimentos de alimentação para mantença corporal. Estaremos, assim, aumentando as exigências totais de alimentação. Ora, se temos excedentes disponíveis de pastagem para dar suporte a essas vacas maiores, o gerenciamento econômico fatalmente nos levará a concluir que o melhor será aumentar o número de vacas de porte médio na mesma área de pasto. Diante disso, estaríamos na contramão da lista dos touros líderes para peso ao desmame.

Como outro exemplo, a stayability (permanência produtiva da fêmea no rebanho aos 8-10 anos de idade) estaria comprometida pelo mesmo motivo das altas taxas de exigências nutricionais correlacionadas ao maior tamanho das vacas.

A despeito da existência de um considerável conhecimento dos custos econômicos na produção – desde o nascimento do bezerro, recria, sistemas de acabamento a pasto para o frigorífico e/ou confinamento, exigências nutricionais para mantença corporal -, nenhuma dessas informações está disponível de pronto, num formato que possa assessorar o produtor na identificação de quais características lhes serão importantes no momento de eleger o reprodutor que cobrirá as matrizes.

Com a crescente lista das DEPs, não faz sentido sufocar o pecuarista ou comprador de touros com essas informações sem a devida pesquisa quanto às reais conseqüências de sua utilização no rebanho. Os instrumentos disponíveis ressentem-se da falta de um conhecimento científico maior. Deve existir uma via melhor para captar os conhecimentos de outros cientistas, tais como nutricionistas, administradores e economistas. E facilitar ao tomador de decisões, na fazenda, a escolha de que touro usar, em determinado sistema de produção, para otimizar suas receitas líquidas.

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José da Rocha Cavalcanti, engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Viçosa em 1974, selecionador do Nelore Irca em São Miguel do Araguaia, GO

Esse artigo foi originalmente publicado na revista DBO Rural e no portal BeefPoint em 06/03/2006.