A pecuária de corte está sempre desafiando seus administradores quando da tomada de decisões, para obtenção de bons resultados. Em sua ação cíclica, essa atividade enfrenta momentos em que as margens de ganho tornam-se pequenas. Mantendo o negócio sob controle, nas fases favoráveis, pode faze-lo deslanchar, provendo a estabilidade da exploração.

Em geral, a discussão sobre o modo de operar a pecuária se estabelece com base em duas formas: a extensiva e a intensiva.

A extensiva, freqüentemente identificada com o pastejo fixo, nem sempre é bem conduzida. Na maioria das vezes, é desenvolvida em ambiente deficitário de infra-estrutura, administrando uma manutenção de estoque do rebanho (reserva de capital) com baixas expectativas de produção.

A intensiva, identificada com a adoção do pastejo rotacionado, visa a maximizar a produção por área e, por isso, atrai irresistivelmente a atenção dos pesquisadores. Para seu desenvolvimento, entre outras exigências, requer um maior aporte de capital investido, uma maior utilização dos insumos “dolarizados” e mão-de-obra mais especializada. Com isso, à exceção dos módulos pequenos, operados por mão-de-obra familiar, quase sempre termina por gerar renda negativa, principalmente por não contar com uma âncora cambial nas arrobas produzidas para atrelar aos insumos exigidos.

Pessoalmente, prefiro uma abordagem diferente na forma de conduzir o negócio da pecuária de corte: eficiência produtiva. É o que busco na Fazenda Providência do Vale Verde, em São Miguel do Araguaia, GO. A busca dessa eficiência produtiva pressupõe a utilização moderada dos insumos, infra-estruturas de bom retorno do capital investido e melhor desempenho de mão-de-obra, que resulte num maior número de animais bem assistidos por cada vaqueiro. Como objetivo se persegue a produção ótima, em vez da produção máxima. O mais importante, é maximizar as receitas líquidas.

Para tanto, utilizamos o sistema de pastejo fixo, com carga variável, respeitando a convivência estabelecida entre os animais nos seus respectivos lotes. Isso significa que, quando se precisa alterar a pressão de pastejo de um determinado pasto, se troca os lotes (representando cargas animais diferentes) dos pastos sem alterar a sua composição, isto é, sem alternar ou substituir os animais de cada lote. Um monitoramento mensal, por meio de notas para avaliar as condições do capim (quantidade de folhas) e o estado corporal médio dos animais de cada lote, é que indica o momento de se fazer às trocas.

Ao reduzir o estresse, estamos diminuindo a quantidade de energia utilizada para a mantença corporal, direcionando um saldo maior da energia consumida, para a produção. Esta maior produção, causada indiretamente pelo conforto animal, constitui a base da eficiência produtiva.

Entre outros fatores, o conforto animal está diretamente relacionado com o tempo gasto pelo animal para realizar a sua dieta, pela facilidade de acesso ao bebedouro e cocho de sal e pelas condições para estabelecer o seu grupo de convivência. Os bovinos têm o instinto gregário, gostam de viver em grupos de animais da mesma espécie, limitados a um determinado número, nos quais cada conhece o outro. Ao adequar o número de animais à capacidade de memorização de quem é quem no lote, proporcionamos uma convivência harmoniosa entre eles, que, então, podem expressar o seu comportamento natural, sem medo de sofrimentos, facilitando a sua locomoção e descanso.

Estudos recentes dão conta de grupos naturais de bovinos, formados por 12 animais, na África. Na Providência do Vale Verde, temos trabalhado com 25-30 cabeças para formar lotes de vacas (bezerro mamando não conta), e com 18-20 animais para as categorias mais exigentes, como as primíparas e vacas com mais de dez crias. Bezerras desmamadas representam a categoria mais importante na composição de um rebanho produtivo – porque têm definido seu desempenho reprodutivo com a qualidade de vida e alimentação no pós-desmama – e, por isso, seus lotes não devem ultrapassar 30 cabeças.

Garrotes machos inteiros, devido ao feromônio (hormônio masculino), têm sua capacidade de memorização prejudicada, chegando a causar ferimentos nas patas traseiras de tanto que montam um no outro, tentando definir quem é quem no lote. Para essa categoria, o lote ideal é de 20-25 cabeças.

Ao agrupar os animais, deve-se dar prioridade para que sejam da mesma espécie, idades ou categorias semelhantes, e que estejam no mesmo estágio reprodutivo (fêmeas paridas ou solteiras, por exemplo). Em princípio, esses lotes, uma vez formados, devem ser definitivos, para usufruírem ao máximo do benefício da sociabilidade estabelecida. Nulíparas e primíparas, geralmente, são reagrupadas após diagnósticos de gestação, quando se trabalha com uma estação de monta definida, para se manter a uniformidade do estágio reprodutivo.

Uma dica importante: se for necessário reorganizar os lotes, com mudança de alguns animais, a melhor época é na floração do capim. Com a massa abundante, dando indicação da fartura de comida, os animais tornam-se bem mais sociáveis.

Com esse manejo a Fazenda Providência do Vale Verde, está produzindo 7,5 @ de carne / ha de capim/ano (225 Kg de Peso Vivo/ha de capim). A média brasileira é 40 Kg de PV/ha.
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José da Rocha Cavalcanti é engenheiro agrônomo, integrante do GAMA, selecionador do Nelore Irca, em São Miguel do Araguaia/GO.

Esse artigo foi originalmente publicado na revista DBO Rural e no portal BeefPoint em 19/11/2004.