Exaltação de programa de melhoramento exige reflexão profunda

Estamos vivendo um momento de exaltação dos Programas (de melhoramento) de Publicação das DEPs (Diferenças Esperadas na Progênie). Os animais, para serem reprodutores, não precisam pertencer a uma determinada raça, não precisam do histórico reprodutivo ou de desempenho – o que não pode faltar é a DEP.

Em todos os sumários há a definição clássica do que seja a DEP: se o touro A tem uma DEP +10 para peso à desmama e o touro B, -10, isso significa que os filhos do touro A serão, na média, 20 kg mais pesados na desmama do que os filhos do touro B.

Quem se candidata a pôr a mão no fogo para garantir que isso não é uma heresia científica?

Com a popularização do computador e os programas livres disponíveis na internet, qualquer pessoa bem intencionada pode obter as DEPs de seus animais. E daí? Será que a DEP vai aumentar a minha produção? Alguém já perguntou ao vendedor de touro ou sêmen com DEP, qual o valor da indenização caso isso não aconteça?

Não estou querendo dizer que a DEP é uma mentira, muito menos que é inútil. Mas não podemos aceitá-la da maneira como está sendo comercializada.

Precisamos ir mais fundo, questionar a maneira como está sendo calculada. A transparência de como os dados estão sendo manipulados. Em que nível de cientificidade ou superficialidade ela está sendo elaborada? Que conjugações dos modelos estão na composição das avaliações? Que cuidados estão sendo tomados para que determinados touros não estejam com suas informações viesadas. Quais os critérios que estão sendo utilizados na definição de grupos contemporâneos? Que fatores estão corrigindo diferenças ambientais? Qual o grau de conscientização do pessoal de campo, quanto à responsabilidade zootécnica, na coleta das informações, que serão enviadas e demandarão horas e mais horas de computação para comporem um banco de dados confiável? E os técnicos que estão no laboratório de informática – já tiveram algum contato com currais e animais?

Não é difícil se manter o “status quo” de determinados touros nos diversos sumários, para que, não havendo discordância grave, se mantenha a credibilidade. Como também, torna-se confortável seguir a “cartilha”, usar nos acasalamentos os touros que produzem “DEPs” nas suas progênies e “lavar as mãos” da responsabilidade de que genética você está passando para o seu cliente.

Há maneiras de se calcular a DEP até para o berro do boi, através da quantificação dos decibéis de cada um, mas e daí? Para quem, e que, estará servindo essa quantidade de DEPs (pesos aos 120, 240, 420 dias, ganhos pré e pós-desmame, IPP, MPG, DPA, PE365, PE455…….)?

Qual delas vai proporcionar a produtividade que atenda a nossa expectativa?

Precisamos selecionar animais que sejam eficientes em produção de carne em sistemas compatíveis com nossas realidades, isto é, que proporcionem uma maior renda líquida para o produtor.

O foco deve estar nas características de relevância econômica e todo esforço deve estar dirigido na elaboração da DEP que reflita animais mais produtivos em seus diferentes sistemas de produção, direcionados para os seus distintos mercados.

Comercialização de genética requer responsabilidade de todos envolvidos ou estaremos contribuindo para um crime de lesa-pátria.

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José da Rocha Cavalcanti é agrônomo e selecionador do Nelore Irca em São Miguel do Araguaia, GO.

Artigo publicado originalmente na Edição 2004 do Anuário DBO Genética e no portal BeefPoint, em 10/09/2004, com 11 cartas comentando o artigo.