Este artigo originalmente foi publicado no BeefPoint em 17/08/2009.

DEPs – De que lado você está?

José da Rocha Cavalcanti (*)

Quando os programas de melhoramento genético de gado de corte começaram no Brasil, pesquisadores e associações de criadores organizaram simpósios e workshops para convencer os criadores a utilizar as Diferenças Esperadas na Progênie (DEPs) durante o processo de escolha dos touros para os seus respectivos esquemas de acasalamento. Desde então, alguns reprodutores passaram a ser evidenciados em publicações e sumários por apresentar boas DEPs para desempenho em crescimento.

Diamante 2475 IRCA, em condições de criação 100% a pasto (sem suplementação) demonstrando sua capacidade de produzir carne de boa qualidade com dieta de capim e sal mineral.

Diamante 2475 IRCA, em condições de criação 100% a pasto (sem suplementação) demonstrando sua capacidade de produzir carne desossada com bom rendimento e de boa qualidade em dieta de capim e sal mineral.

Essa estratégia de comunicação foi eficaz e as DEPs se tornaram um instrumento decisório nos acasalamentos promovidos no Brasil. Fato este que se comprova ao olhar os anúncios e catálogos de leilões: as DEPs quase que obrigatoriamente estão ali expostas.

Agora, passado esse primeiro período de entusiasmo, receio que as DEPs tenham se transformado num mero instrumento de marketing. É como já tivesse se materializado o “monstro em potencial”, do qual falava já em 2002 Wayne Vanderwert no seu artigo “How much performance?”, publicado revista Beef Magazine. Sim, um monstro anda rondando, também sorrateiro, os atuais programas de melhoramento genético do gado de corte no Brasil

Parece-me conveniente expor aqui, desde logo, uma advertência que não é apenas minha, já que também partilhada por outros criadores (não muitos, é verdade), que expressa a seguinte idéia: a seleção por um única diferença, no caso concreto a seleção por DEPs, pode ser perigosa. O risco está na possibilidade de essa ferramenta forçar o estabelecimento de um mesmo e único tipo de competição entre criadores de gado, a competição por “quantidade de números”.

Buscar o melhor desempenho em gado de corte é bom, isso não se discute. Mas o resultado “extremo” em desempenho pode acabar sendo ruim e insatisfatório. E mais, como adverte Vanderwert, o risco de perdas é maior quando a teoria que origina receitas de lucratividade encontra-se baseada em conceitos que ainda estão no meio do caminho. Nada de precipitações, portanto, até porque as ciências, inclusive a que gera as DEPs, estão calcadas em hipóteses que podem, por definição, ser revistas e até refutadas posteriormente.

Quem é criador sabe que o melhoramento genético está cheio de antagonismos. Em termos de seleção do gado de corte, por exemplo, promover um grande desempenho em crescimento pode significar também produzir um animal com um tipo biológico muito distante daquele que se pretende alcançar como eficiente produtor de carne, inclusive porque o animal de estrutura maior tende a ter um padrão de composição de maturidade mais lento. Noutras palavras, quando postos na balança, animais mais pesados (maiores) não são tão “gordos” quanto parecem ser.

Na realidade, era justamente nesse tipo de animal, o de maior porte, que os frigoríficos apostaram, tendendo a rejeitar o tipo compacto e gorducho do passado. Os pesquisadores, por sua vez, postulavam que o crescimento muscular era mais eficiente do que o acabamento precoce de gordura subcutânea, uma vez que, em sua concepção, o animal de maior estrutura cresceria mais depressa, tendo ganhos de peso mais rápidos.

Biotipo de baixo rendimento de carne desossada.

Biotipo de baixo rendimento de carne desossada.

No entanto, à medida que no Brasil os criadores de nelore selecionavam animais para maior estrutura e mais quilogramas, começamos a ver, nas provas de ganho de peso em confinamento (dados referentes, portanto, a animais testados com alta ingestão de energia), médias de ganho diário acima de 1.100 gramas, mas em tipos que apresentavam média de apenas 2 mm de gordura subcutânea na sua carcaça.

Cuidado, pois. Aqui no Brasil, depois do advento das DEPs, já é possível também constatar algo muito próximo do que Vanderwert  relata em seu artigo:

1) o tamanho da vaca madura aumentou e, também, as exigências de manutenção;

2) as taxas de prenhez caíram (este recuo, aqui no Brasil, logo foi encoberto pelos protocolos para Inseminação Artificial em Tempo Fixo-IATF);

3) a circunferência escrotal passou a ser a base para se inculpar animal tardio em termos de reprodução; e

4) o livro de nutrição da recria a pasto teve de ser reescrito para que se pudesse conseguir o desenvolvimento da “precocidade sexual” das fêmeas em fase de reprodução.

Nos últimos tempos, como se não bastassem as DEPs já existentes, os programas de melhoramento iniciaram a publicação de uma série de novas categorias: DEPs para período de gestação, DEPs para prenhez da novilha, DEPs para permanência produtiva da vaca no rebanho… Tudo embalado como remédio para problemas que não tínhamos no passado. E, como as grandes e pesadas vacas sempre pareceram finas, acabaram desenvolvendo, também, uma pontuação para avaliar as condições de escore corporal desses animais. Daí pra frente, aumentamos cada vez mais os custos de produção de nossas matrizes.

Desde 1995, os pesos de carcaça têm subido firmemente. Precisamos, agora, tomar muito cuidado para não comprometer a qualidade da carcaça e, mais importante que tudo, para não pôr em risco a aceitação do nosso produto pelo consumidor. A falta de cuidado pode custar muito caro à cadeia da carne. Recentemente, em Goiânia, num restaurante especializado em carne, ouvi o maître dizer que ali só serviam picanha argentina porque, dessa forma, não recebiam reclamações dos clientes, já que, em relação aos cortes brasileiros (peças grandes), as queixas dos clientes eram freqüentes.

Vanderwert relata, em seu artigo, que alguns produtores de carne nos EUA, recuperando o bom senso, aumentaram o interesse por determinado tipo de cruzamento, mais particularmente pelo Angus. Isso também aconteceu no Brasil, onde presenciamos o incremento da venda de sêmen de Angus. E se também dermos uma olhada nos gráficos de tendências genéticas para o crescimento, verificaremos que os reprodutores da raça Angus têm alcançado as melhorias pretendidas, melhorias essas que apontam para o que é verdadeiramente necessário quando se deseja alcançar a liderança na aceitação de determinados cortes de carne pelos consumidores. Na realidade, esses criadores desistiram de investir no “tamanho dos touros” e partiram para melhorar a qualidade da carcaça. Vislumbraram um importante ponto de luz no mercado da carne: a aceitação do consumidor final.

Infelizmente, nós, criadores de nelore, estamos no meio da estrada. Ainda há quem insista em propalar os altos pesos. Mais e mais touros nelore se posicionam no topo da lista dos reprodutores que apresentam maiores índices, influenciados pelas altas DEPs para medidas de crescimento. E, cada vez mais, ganha reforço a tendência de uso de determinadas linhagens genéticas para maiores tamanhos em idade adulta. No entanto, se observarmos os fatores de ajustamento de DEPs em função da reprodução de gado de corte, perceberemos que, no tocante aos touros colocados entre os de maior crescimento, “a fertilidade não é o que costumava ser”. Talvez por isso, novas sugestões de dieta para semi-confinamento pós-desmama passaram a ser apontadas como solução de vanguarda no manejo das fêmeas “precoces”.

É isso. Uma nova ameaça está nos rondando, a dos números. Números grandes impressionam. Mas, em termos de produção de genética eficiente, maior não é necessariamente o melhor. Basta lembrar que, para efeito de resfriamento das carcaças em frigoríficos, por exemplo, só se requer uma cobertura de gordura que as proteja, algo entre 3-5 mm, nada mais do que isso, no caso de um novilho jovem engordado a pasto.

É inegável que as características de importância econômica devem alcançar o seu ponto ótimo. Acontece que, se ficarmos apenas procurando os animais com características com desempenho situados nos extremos direito das “curvas de Gauss” (ex, top 0,1%), perderemos em fertilidade e teremos problemas com a qualidade. Além disso, reconheço que a avaliação genética e a tecnologia de ultrassom podem exercer um grande impacto na cadeia da carne. Mas vale lembrar advertência de Vanderwert: “quantificar um animal apenas em suas diversas diferenças individuais não será o suficiente para nos manter no negócio”.

Diante dessa ameaça dos números, precisamos ser também seletivos. Todos nós, produtores de genética e produtores de gado comercial, devemos estar preparados para ter acesso e nos beneficiar das mais sofisticadas análises de dados e dos mais eficientes arquivos de informação, procurando conhecer qualquer novo instrumento que nos habilite a refinar a produção, sempre mantendo o equilíbrio entre biologia e economia na produção de carne. Agindo assim, creio que estaremos, como disse Vanderwert, “mais centrados nos alvos de mercados específicos para o produto final”, pois – conforme ele previa – “a crescente influência das redes e alianças nos imporá essa direção”.

Enfim, para sermos competitivos e eficientes nesse segmento em que atuamos, precisamos sempre rever nossos parâmetros e admitir os antagonismos. Sem isso, não haverá como nos mantermos num negócio extremamente competitivo. Pode-se ser um produtor de genética que só sabe “jogar com números”. Pode-se também ir além, focando-se não em publicações, mas em resultados, isto é, procurar fazer uma seleção de animais funcionais. De que lado você está?

(*) José da Rocha Cavalcanti é engenheiro agrônomo e selecionador do Nelore IRCA (Fazenda Providência do Vale Verde, São Miguel do Araguaia, GO).