O selecionador José da Rocha Cavalcanti, proprietário da fazenda Providência do Vale Verde, em São Miguel do Araguaia, GO, utiliza ultrassonografia para identificar em seu rebanho Nelore animais com precocidade em acabamento de gordura e com um bom rendimento de carcaça. “Nosso projeto busca selecionar animais capazes de alcançar os resultados almejados em um ciclo de produção de 22 meses”, diz Cavalcanti, que conduz um plantel de 1,5 mil cabeças, entre machos e fêmeas.

Todos os machos e fêmeas da fazenda são submetidos ao sobreano (550 dias de idade) ao ultrassom, para medidas de área de olho de lombo-AOL, espessuras de gordura subcutânea-EGS e na garupa-EGP8. As avaliações visuais – de conformação, precocidade e musculatura – são feitas ao desmame e sobreano, e servem de apoio aos dados coletados pela ultrassonografia.

“Com o ultrassom, conseguimos eliminar os riscos comuns daqueles que selecionam biotipo apenas com os escores visuais, como a dificuldade de visualizar e pontuar corretamente diferenças entre o que é músculo e gordura”.

Segundo Cavalcanti, desde que iniciou o trabalho de ultrassonagrafia, em 2004, os índices de precocidade de acabamento e de área de olho de lombo apresentaram acentuada evolução.

Em 2004, as avaliações por ultrassonografia em machos ao sobreano indicavam que apenas 15,7% deles apresentavam gordura mediana (3-6 mm). Já na safra 2008, avaliada este ano, a proporção de machos com a espessura de gordura considerada ideal saltou para 95,4%. Nas fêmeas, também se registrou melhoria na taxa de gordura mediana, que saltou de 39,1% o número de fêmeas com essa gordura, em 2002, para 96,6% do total de fêmeas desmamadas apresentando a gordura mediana, em 2008.

No mesmo período, dobrou a média de espessura de gordura subcutânea nos machos, elevando-se de 2,2 mm, na safra de 2002, para 4,4 mm, em 2008, enquanto no plantel de fêmeas, a espessura média de gordura evoluiu de 2,8 mm para 4,4 mm. A melhoria no acabamento foi acompanhada pela evolução da área de olho de lombo, medida associada à musculosidade. No período de 2002 a 2008, a AOL evoluiu de 47 cm2 para 60 cm2, nos machos, e de 41 cm2 para 52 cm2, nas fêmeas.

O trabalho de seleção da Providência do Vale Verde visa a oferecer ao mercado uma genética que permita a opção de levar ao abate animais que aos 22 meses apresentem 440 kg de peso vivo, com gordura subcutânea de 3 mm a 6 mm e rendimento de carcaça de 53%, o que resulta num peso morto de 232,5 kg ou 15,5 arrobas. “O peso morto de 15,5 arrobas não é o ideal para o frigorífico, mas é o que traz maior lucratividade para quem trabalha com o sistema de produção de ciclo curto a pasto”, afirma Cavalcanti. “O ágio pago pela indústria por animais de 18 arrobas ou 270 kg de peso morto, com cobertura uniforme (6 mm-10 mm) não compensa a lucratividade proporcionada pelo ciclo curto”, acrescenta. “Já no caso de quem produz a pasto, em sistema sustentável, é mais interessante economicamente entregar um animal mais leve (sem agregar o custo de um confinamento), de 440 kg de peso vivo e rendimento de 53%, o que permite, entre outras vantagens, um giro mais rápido na produção e, consequentemente, mais arrobas produzidas com uma margem de lucro maior”. Segundo Cavalcanti, ao optar pelo abate de animais mais leves, o pecuarista reduz o seu custo de produção. “Um animal mais pesado gera mais receita bruta, mas os seus custos de produção são mais altos”, afirma.

Para atingir a meta de abate aos 440 kg de peso vivo, Cavalcanti propõe a engorda a pasto, em ciclo curto, até os 20 meses (cerca de 390 kg de peso vivo), seguida da terminação em regime de semiconfinamento, durante 50 dias, para serem abatidos aos 22 meses. No semiconfinamento, o animal recebe ração com 18% de proteína, na proporção de 1% do peso vivo, com a engorda de um kg/dia, até atingir 440 kg, ou 232,5 kg de peso morto.

Segundo Cavalcanti, o custo total da engorda semiconfinada por 50 dias equivale ao valor de 1,15@ por animal. Com a venda do boi a R$ 15,5@, aos 22 meses, tem se um resultado de 14@ mais 6 kg por animal, descontado, em arrobas, o custo da engorda rápida em semi-confinamento. Nos seus cálculos, isso representa um ganho superior ao que seria obtido no sistema tradicional de pecuária a pasto – abate aos 36 meses, com 18 arrobas de peso.

Considerando-se um período de 60 meses, o sistema proposto por Cavalcanti (a partir da desmama aos 8 meses), resultaria em 4,29 ciclos de recria ao abate, enquanto no sistema tradicional, de matança aos 36 meses, seriam 2,14 ciclos. Para 1.000 cabeças, o sistema de ciclo curto resultaria na produção, em cinco anos, de 31.703 arrobas (já descontado o gasto no semiconfinamento, equivalente a 4.933 arrobas).

Pelo sistema tradicional, uma produção de apenas 23.540 arrobas. Em valor, o sistema de ciclo curto proporciona uma receita 31% maior do que a propiciada pelo sistema tradicional – R$ 2,472 milhões (31.703 arrobas x 78,00/arroba), contra R$ 1,883 milhão (23.540 arrobas x 80,00/arroba), considerando-se no cálculo do sistema de ciclo curto o preço da arroba a R$ 78,00 por ter que descontar o desagio para os animais que pesaram abaixo de 15 arrobas.

Fonte: Revista DBO, Especial de Genética, Setembro 2010.