Ciência utilizada para obter, na pecuária de corte, indivíduos ou populações com características desejáveis, o melhoramento genético animal nunca deve perder de vista a lucratividade do negócio. Por isso, a avaliação genética é a ferramenta objetiva e fundamental para identificar os melhores animais. E, então, selecioná-los.

Quais seriam as características desejáveis em gado de corte, capazes de garantir a maior lucratividade sustentável aos criadores? Proponho as seguintes:

Fertilidade das fêmeas, para obter o maior número possível de bezerros numa mesma população de vacas;

Habilidade maternal, para criar e desmamar bezerros saudáveis;

Tamanho moderado nos animais adultos, para se mostrarem eficientes em condições de restrição alimentar, ou seja, nos pastos, que oferecem níveis nutricionais diferenciados, nas águas e na seca. Algo bem diferente, portanto, da alimentação suplementada no cocho;

Capacidade para depositar gordura subcutânea na fase de crescimento, o que antecipa nas fêmeas a oportunidade de ficarem prenhes e, nos machos, o abate;

Longevidade produtiva das matrizes, expressa por uma longa permanência no rebanho, com alta produção;

Maior quantidade de carne no “gancho do frigorífico” com um menor peso vivo na fazenda, o que se traduz em maior quantidade de arrobas produzidas por área de pastagem.

Capacidade de apresentar todas essas características desejáveis em ambientes que não requeiram o uso intensivo (não sustentável) de insumos.

Essas características básicas há quase 100 anos, serviam como beabá para os meus antepassados, ao se decidirem, ainda em Alagoas, pela criação do Nelore IRCA, pensando em implantar uma indústria frigorífica. O abatedouro não foi construído, mas a idéia-base permaneceu até hoje na Fazenda Providência do Vale Verde, em São Miguel do Araguaia, no noroeste goiano, e ela tem apresentado muitas vantagens.

A razão é simples, e igualmente baseada nos princípios da genética. À medida que se promove o melhoramento genético, com base em um programa de seleção eficaz – e este se perpetua por muitas gerações, com o mesmo critério de seleção –, alguns genes se tornam cada vez mais freqüentes no plantel. Dessa forma, a distribuição dessa população melhorada se dá numa curva assimétrica à direita do ponto ótimo das características de relevância econômica (tal como mostra o gráfico 1).

Gráfico 1 - Distribuição assimétrica

Gráfico 1 – Distribuição assimétrica

Distribuição dos animais da safra 2007 e 2008 em relação Espessura de Gordura Subcutânea

Visualização da Evolução – O programa de melhoramento do Nelore IRCA empenha-se no conhecimento da evolução genética da população, para acelerar, na direção desejada, a alteração das características de interesse econômico.

Em uma distribuição normal, a maioria dos animais está localizada próxima à média e, quando olhamos para produções menores ou maiores (os extremos), o número de animais nesses grupos diminui (ver gráfico 2)

Curva normal ou de Gauss
Gráfico 2 – Distribuição normal, curva de Gauss

Graças à seleção, a mudança do valor genético dos animais de uma população pode ser afetada pela (i)-variação genética da população, (ii)-intensidade de seleção, (iii)-acurácia dos resultados e (iv)-pelo intervalo entre as gerações.

A variação genética de uma população distribuída à direita do ponto ótimo pode ser otimizada pela identificação dos animais mais harmônicos nas características selecionadas. O desvio-padrão genético, como uma particularidade da população, contribuirá para a efetivação dos valores conseguidos nas características que produzem a lucratividade.

A intensidade de seleção vai depender da fração da população escolhida para serem os pais. Ou seja, quanto maior a proporção selecionada em relação aos candidatos, menor a intensidade de seleção. Exemplo: selecionar os 100 melhores em 1.000 ou 500 em 1.000.

Maior intensidade é encontrada na primeira situação. Quando se trabalha com vacas de maior longevidade produtiva, melhora-se a intensidade de seleção das fêmeas, aumentando-se a pressão sobre as necessárias para reposição. Como resultado, tem-se um maior progresso genético, com a também indispensável contribuição de touros disponíveis, igualmente selecionados com rigoroso critério.

Para garantir uma boa acurácia da seleção, devem ser avaliadas todas as progênies até o sobreano, permitindo obter alta precisão na determinação do mérito genético dos touros.

Intervalo de gerações – Se, por um lado, um curto intervalo de gerações – por exemplo, 4 a 5 anos – proporciona um maior progresso genético por ano; por outro, um maior intervalo entre as gerações, pode aumentar a exatidão da seleção, pois um maior número de informações (filhos avaliados) estará disponível. Por exemplo, o Retorno Maternal, característica na qual o touro tem avaliação acurada, baseada em dados reprodutivos de suas filhas, a partir dos seus 7 a 8 anos de idade.

Intensificando os resultados – Além do uso de touros provados IRCA, uma proporção significativa das fêmeas em reprodução é acasalada com touros jovens da mesma procedência. Em vez de focar todo o trabalho em um único touro jovem, que mostrou qualidades, sempre optamos por usar um grupo de 8 a 12 touros jovens. Com isso, diminuem-se os riscos.

Se considerarmos o futuro de um grupo de touros jovens com altas DEPs, mesmo com baixa confiabilidade (acuracia), acreditamos que, se a DEP de um touro diminui, a de outro aumenta. Em um grupo, os touros que diminuem sua DEP normalmente contribuem para o aumento da DEP dos outros. Assim, a DEP média final do grupo de touros jovens não muda com o tempo, pois um grupo compensará o outro.

Em outras palavras: a melhor estratégia para minimizar o risco da baixa acurácia de touros jovens e maximizar o ganho genético é trabalhar com vários deles ao mesmo tempo, em lugar de privilegiar o uso um ou dois apenas.

Em nossa fazenda, os dados referentes à safra 2010-2011 foram os seguintes: 41,9% dos bezerros nascidos são filhos de 9 touros da geração 2007 e de 4 touros da geração 2006; portanto, com 3 e 4 anos de intervalo de gerações.

Nova geração a caminho - IRCA

Nova geração a caminho - IRCA

Lucratividade, sempre – A produção de genética será viável para aqueles que se concentram na produção de touros que geram ao produtor mais dinheiro, e que de fato podem fazê-lo, em razão de realmente entenderem como esses produtores conduzem o seu negócio.